A Procuradoria-Geral do Estado do Rio Grande do Sul (PGE-RS) identificou indícios de fraudes em ações judiciais que exigiam do governo o custeio de tratamentos domiciliares de saúde, os chamados serviços de home care. O levantamento resultou no envio de dossiês ao Ministério Público do RS (MPRS), que deu início às investigações.
Os indícios surgiram a partir de processos que solicitavam, por meio de decisões liminares, a estrutura hospitalar em residências para pacientes com doenças graves ou crônicas. A apuração foi conduzida pela Procuradoria de Saúde (PSaúde), unidade especializada da PGE-RS.
Segundo o procurador-geral do Estado, Eduardo Cunha da Costa, o padrão repetitivo das ações levantou suspeitas. “Quando percebemos que há um padrão nos processos, o que já é um indício de possível fraude, nossos procuradores reúnem provas para encaminhamento aos órgãos competentes”, afirmou. Em 2023 e 2024, quatro grupos de casos foram enviados para investigação.
O aumento no número de ordens judiciais reforça a preocupação da PGE-RS:
Apenas em 2024, mais de R$ 39 milhões foram bloqueados das contas do Estado para custear tratamentos com home care — o dobro do valor de 2023.
Após o deferimento de liminares, o Estado deve abrir uma licitação personalizada, conforme a necessidade de cada paciente. No entanto, frequentemente o serviço começava com a empresa que apresentasse o menor orçamento entre três apresentados pela própria parte autora.
Mesmo após a conclusão do processo licitatório, familiares dos pacientes demonstravam resistência à troca de empresa, dificultando que o prestador oficial assumisse o atendimento. Essa conduta gerou suspeitas, segundo o procurador Lourenço Orlandini, coordenador da PSaúde.
“O paciente realmente tem necessidade médica, mas em alguns casos a família parece envolvida em uma situação irregular, com possível favorecimento de empresas”, relatou. Há ainda a suspeita de valores superfaturados, serviços desnecessários ou sequer prestados.
Entre os principais indícios de fraude, a PGE-RS destacou:
Outro fator que chamou atenção foi a concentração atípica de liminares. Em 2024, 25% das decisões sobre home care foram emitidas na comarca de Santo Ângelo, no noroeste do Estado. Um único advogado aparece como autor de quase 50% das ações. A Procuradoria e o Ministério Público Estadual seguem com as apurações, e o caso pode se desdobrar em sanções administrativas, civis e criminais.